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INCENTIVE SEU FILHO VER TV - Rodrigo Stürmer

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Trabalhar como psicoterapeuta traz algumas vantagens. Dentre elas, está a flexibilidade de horários que o trabalho autônomo em consultório nos oferece. É um tanto indescritível a sensação de no meio da tarde poder se dar ao direito a um relaxante e paciencioso café.  De vez em quando, dá até para arriscar uma espichada na poltrona e uma “zapeada” no controle remoto da TV.

Numa dessas zapeadas que surgiu o tema desse texto...

Críticos, e intelectuais, de plantão não suportarão a ousadia do título acima e ficarão enfurecidos e horrorizados. Como assim prezar para que nossos jovens, futuros da pátria amada, percam o seu precioso tempo vendo TELEVISÃO. E os livros? As leituras? Os estudos? O trabalho? Que p.... de psicólogo é esse que incentiva que os jovens gastem seu tempo em frente à TV?

Mesmo sendo os vilões (principalmente dos pais de jovens) há muitas décadas - provavelmente você não encontre uma só reportagem que fale sobre os benefícios que a TV pode trazer na vida de alguém - creio não existir em todo o mundo uma só residência que não possua pelo menos um televisor (na grande maioria há bem mais do que um). Minto!

Érico Rocha, um dos maiores ícones da internet (quem ainda não o conhece é só ir no Google e digitar o nome dele) afirmou em uma entrevista recente que não possui um aparelho de TV sequer em seus muitos apartamentos (e olha que são muitos mesmo). O criador da fórmula de lançamento (estratégia criada por ele para ganhar dinheiro e ter sucesso através da internet) acredita que exista uma fórmula para se chegar ao topo e uma delas é não assistir TV. Segundo ele, o tempo que se perde em frente a ela (TV) poderia ser utilizado para coisas muito mais rentáveis (o conceito de rentável fica a critério de cada um).  

Venho acompanhando críticas ferozes da sociedade como um todo diante das novelas da Globo. Da mesma forma e no mesmo nível de indignação, quanto ao jornalismo e aos telejornais. Os argumentos são de que as novelas estariam convertendo jovens a fazer besteiras. “Fazer besteiras” parece significar terem atitudes e posicionamentos que vão contra a nossa cultura. Que vão contra aquilo que está estabelecido desde sempre. Que não deve ser contestado, questionado. Assim está e assim deve ficar.

No mesmo embalo está a revolta contra a política imunda que toma conta do jornalismo brasileiro. Retrato fiel do nossos país. Da nossa nação. Do nosso jeitinho. Aquele tal chamado de brasileiro. Insistem em querer esconder de nossos jovens a verdade mascarada (e negada) que toma conta de tudo que está a nossa volta. Desejam tirar de nossos jovens a verdade sobre si mesmo e seu povo. A verdade sobre a sua história. Sobre o seu passado, presente e futuro. Insistem na alienação e no desconhecimento. Os mesmos que proíbem são os que afirmam com tamanha convicção que estão neles, jovens, o futuro de nosso país. Pergunto: como?

Não desejo aprofundar e debater todo o preconceito por trás dessa conduta, normalmente proferido pelos sábios adultos de nossa sociedade. O questionamento que faço é em outro sentido: porque as casas estão abarrotadas de aparelhos de TV, porque a audiência das telenovelas batem recordes dia após dia e mesmo assim se critica tanto os coitadinhos dos televisores? Que incoerência e essa? Só me resta pensar que por trás desse julgamento e desagrado todo, há algo que mantem a todos sempre ligados nela. Parece haver um processo intuitivo em cada um de nós de que estar ali, em frente à TV, pode não ser tanta perda de tempo assim. 

Sou um absoluto defensor da literatura, das leituras, dos estudos, do conhecimento, da escola. Mas está na hora de um basta! Que não sejamos “Éricos Rochas”. Que não acreditemos que existam fórmulas para que um cidadão, seja ele do nível e idade em que for, alcance o topo (inclusive o próprio conceito de topo pode ser incrivelmente diferente -  oposto - para mim e para você). A TV pode sim ser decisiva no processo de conhecimento, não só intelectual como também emocional do ser humano.

Emocional? Como assim?

Voltando ao início para responder a pergunta, a tal “zapeada” que resultou na ideia do texto...

Foi justamente em uma dessas pausas, entre um atendimento e outro, que resolvi ligar a TV. Era próximo das 18h e passava o programa MALHAÇÃO da rede globo. Por inúmeras vezes ouvi em meu consultório jovens, adolescentes, se referirem ao tal programa. Sempre atento aos seus relatos e aos conflitos particulares de cada um, acabava por não dar tanta ênfase ao fato e a “coincidência” de vários relatarem o mesmo programa como forma de se acharem compreendidos, muitas vezes, através daquilo que se passava nele e que “coincidia” com as suas questões pessoais.

Depois de ver o programa eu entendi o que eles me falavam insistentemente. Também entendi o porquê o mesmo se mantém como líder de audiência por várias décadas, despertando a atenção de jovens de todas as idades, do norte ao sul do país. O programa é simplesmente um primor de transparência, de escancaramento de toda a sujeira que a sociedade tenta enfiar para debaixo do tapete. Os 15 minutos que fiquei em frente à TV foram uma aula de bom senso e de respeito ao ser humano. Me vigoraram para retornar ao consultório e seguir o trabalho, com a certeza de que nós não estamos a sós nessa luta. E que sim, ao contrário do que muito se diz, a TV vem nos ajudando nesse processo de elucidação das questões do ser humano.

Programas de TV, que trazem à tona conflitos pessoais comuns a sociedade, tem uma contribuição importantíssima quanto ao sofrimento emocional da população. Esses programas, como as novelas globais, muitas vezes são a única possibilidade que o indivíduo tem de se sentir compreendido, acolhido e amparado em seu sofrimento. É como se naquele momento mais alguém tivesse padecendo das mesmas dificuldades que ele e somente isso, algumas vezes, é capaz de encorajar e ser o combustível para poder lutar e encarar o mundo com mais força.

As novelas (séries e filmes também) acabam sendo assim um fortalecedor do mundo interno do sujeito. Fazendo com que através deles, ele acabe por conseguir aquilo que de um outro modo, vivendo em sociedade, jamais seria possível. MALHAÇÃO é o exemplo perfeito disso e consegue isso com tal maestria que surpreende. É incrível poder perceber o quanto as tramas trazem à tona conflitos que são comuns a adolescência e com uma riqueza de detalhes (e de intensidade) que realmente impressionam.

Por isso pais, fiquem tranquilos. Entre uma aula e outra, uma leitura e outra, ver TV pode ser a parte do dia mais enriquecedora da vida do seu filho. Que possamos lutar por um mundo com mais TV’s, menos arrogância e hipocrisia. Que possamos sair dos estereótipos, das fórmulas prontas que não leva ninguém a lugar algum; e que somente angustiam e produzem mais sofrimento. Se a qualidade do país (e do mundo) em que vivemos se desse somente através de intelectuais literatos, Brasília e seus cultos políticos (alguns com vários livros publicados) seria a personificação do sublime. Parece que não, né!?      

Rodrigo Stürmer

Psicólogo/CRP 07/23613